Dias Perfeitos : A Série é Melhor que o Livro de Raphael Montes?
Sabe aquele frio na espinha que você sente quando percebe que esqueceu o gás ligado? Multiplique por dez e adicione um psicopata com cara de bom moço. Assistir a esta obra é como entrar voluntariamente em uma mala de viagem: é apertado, claustrofóbico e você sabe que o destino final dificilmente será um resort cinco estrelas. A série não pede licença; ela invade sua sala com um humor ácido e uma tensão que faz o espectador questionar a própria sanidade ao torcer — ainda que por um segundo — pelo plano absurdo de um solitário excêntrico.
O Amor é Cego, mas Traz uma Mochila Pesada
Conhecemos Téo, um estudante de medicina que prefere a companhia de cadáveres (eles não reclamam, entende?) até encontrar Clarice. Ela é o caos em forma de arte; ele é a ordem em forma de formol. O conflito explode quando o “não” dela se torna um mero detalhe técnico para ele. O enredo nos arrasta por uma “road trip” bizarra onde o cativeiro é o cenário de um romance forçado, regado a sedativos e diálogos que oscilam entre a doçura doentia e o terror puro. Téo não quer apenas o coração de Clarice; ele quer a edição final da vida dela. A série expande o universo das páginas, dando rostos e expressões que tornam o comportamento meticuloso do protagonista ainda mais perturbador. Enquanto o livro nos trancava na mente de Téo, a tela nos obriga a ser testemunhas oculares de cada erro de cálculo e de cada surto de “romantismo” sociopata. É um jogo de gato e rato onde o rato está dopado e o gato acredita piamente que está salvando o dia.
A experiência de assistir a essa jornada é um exercício de masoquismo cinematográfico. O ritmo flui com uma agilidade venenosa, impedindo que você respire entre uma cena e outra. Diferente do livro, onde a imaginação pintava tons de vermelho mais vivos, a série aposta em uma estética fria que contrasta com o calor sufocante do Rio de Janeiro. Alguns podem sentir falta de certas nuances psicológicas que só a literatura permite, mas em compensação, as atuações acabam humazizando o monstro de uma forma quase perigosa. É um frenesi visual que te deixa exausto, mas estranhamente faminto pelo próximo episódio, como se você também estivesse sob o efeito de alguma substância administrada pelo Téo.
Nota: 3.8 / 5
Veredito: A obra é uma lição de como adaptar o bizarro para o grande público sem perder a essência doentia do material original. O grande trunfo é a coragem de manter o protagonista detestável, embora a série suavize certas arestas para não espantar os mais sensíveis. Por outro lado, a expansão de tramas paralelas asfixia um pouco o terror psicológico central que fazia do livro uma leitura tão claustrofóbica. É um deleite para fãs de suspense que buscam algo fora da curva nacional, entregando um final que divide opiniões, mas que certamente não sai da cabeça tão cedo.